trabalho

A IA vai transformar o trabalho. Mas estamos a preparar as pessoas para essa mudança?

Há uma parte da discussão sobre Inteligência Artificial que me interessa particularmente: o que acontece às pessoas quando o mundo profissional muda mais depressa do que elas conseguem mudar?

Um artigo recentemente publicado pelo World Economic Forum chama a atenção para uma transformação que já não se limita ao trabalho administrativo ou intelectual. Com a evolução da IA e da robótica, a automação começa também a chegar à indústria, logística, construção, agricultura ou saúde.

Os números dão uma ideia da dimensão da mudança: até 2030 poderão ser criados 170 milhões de novos postos de trabalho e deslocados 92 milhões. Ao mesmo tempo, cerca de 40% das competências necessárias no trabalho deverão mudar.

É fácil olhar para estes números apenas pela perspetiva do emprego.

Eu prefiro olhar para eles pela perspetiva do comportamento humano.

Saber já não é suficiente

Durante muito tempo, a experiência protegeu-nos. Aprendíamos uma profissão, acumulávamos conhecimento e tornávamo-nos progressivamente melhores naquilo que fazíamos.

Mas o que acontece quando o contexto muda mais depressa do que a nossa experiência consegue acompanhar?

É aqui que a capacidade de adaptação se torna determinante.

E adaptar-se não é simplesmente aprender.


Aprender é adquirir algo novo. Adaptar-se implica conseguir alterar a forma como pensamos e agimos a partir desse conhecimento.


Podemos frequentar uma formação e continuar a trabalhar exatamente da mesma maneira. Podemos conhecer novas estratégias e continuar a reagir da mesma forma quando estamos sob pressão. Podemos até saber que precisamos de mudar e, ainda assim, resistir à mudança.

É neste espaço entre o que sabemos e aquilo que fazemos que o comportamento se torna decisivo.

Quando falamos de transformação digital, falamos sobretudo de sistemas, processos e produtividade. Mas são as pessoas que têm de abandonar procedimentos, aprender, decidir perante a incerteza e aceitar que aquilo que fizeram durante anos pode deixar de ser suficiente.

Para alguém com uma carreira construída, mudar pode significar voltar a ser principiante. Abandonar hábitos que deram resultado durante décadas. Reconhecer que já não sabe. Pode até colocar em causa a perceção do próprio valor profissional.

Por isso, preparar pessoas para o futuro não pode limitar-se a ensinar novas ferramentas.

Precisamos de preparar comportamentos

O World Economic Forum refere que 77% dos empregadores planeiam investir na qualificação dos seus trabalhadores.

 

É necessário. Mas não chega.

 

A performance não resulta apenas daquilo que uma pessoa sabe. Entre conhecimento e resultado existe a forma como reage à pressão, toma decisões, gere a atenção, se relaciona, aprende e responde à mudança.

É precisamente neste território que tenho vindo a trabalhar.

Quando trabalhamos o comportamento, não estamos apenas a procurar melhorar o desempenho atual. Estamos a desenvolver recursos que permitem à pessoa continuar capaz de responder quando o contexto muda.

E talvez seja aqui que devamos colocar uma das questões mais importantes sobre o futuro do trabalho.

Se a tecnologia vai fazer cada vez melhor algumas das tarefas que hoje pertencem às pessoas, onde continuará o ser humano a acrescentar valor?

A questão não será competir com a tecnologia naquilo que ela faz melhor. Será perceber onde o ser humano acrescenta valor e, sobretudo, desenvolver as capacidades que lhe permitem trabalhar melhor num mundo onde a tecnologia estará cada vez mais presente.

Isso exige características profundamente humanas:

  • pensamento crítico;
  • criatividade;
  • capacidade de decisão;
  • inteligência relacional;
  • autorregulação;
  • resiliência;
  • adaptabilidade;
  • capacidade de aprender continuamente;
  • capacidade de agir perante a incerteza.
 

E, talvez acima de todas, capacidade de mudar sem perder aquilo que nos torna humanos.

É por isso que estas capacidades não podem continuar a ser vistas como algo acessório ao conhecimento técnico. Num contexto de transformação permanente, podem tornar-se precisamente aquilo que permite utilizar o conhecimento, integrar a tecnologia e continuar a gerar valor.

Há, no entanto, um aspeto que considero fundamental.

 

A tecnologia pode evoluir muito depressa. O ser humano não muda à mesma velocidade.

 

Mudar comportamentos exige experimentar, errar, compreender, ajustar e consolidar. Exige tempo.

Por isso, talvez o melhor momento para desenvolver capacidade de adaptação não seja quando a mudança já aconteceu.

É antes.

Experimente começar por um comportamento

Pense numa situação profissional recente em que alguma coisa mudou sem ter sido escolha sua: uma nova ferramenta, um procedimento, uma decisão, uma crítica ou uma forma diferente de fazer aquilo que já dominava.

 

Qual foi a sua primeira reação?

Resistiu? Adiou? Criticou? Sentiu insegurança? Procurou compreender? Experimentou?

Não tente corrigir a resposta. Observe-a.

E faça uma segunda pergunta:

 

Esta reação ajuda-me a adaptar ou apenas a proteger-me do desconforto de mudar?

É aqui que pode começar uma pequena reprogramação comportamental.

Escolha uma resposta diferente para experimentar na próxima situação semelhante.

Fazer uma pergunta antes de rejeitar. Experimentar antes de concluir. Pedir feedback. Dedicar algum tempo a aprender algo novo. Ou simplesmente conseguir dizer:

 

“Ainda não sei fazer isto.”

Parece pouco.

Mas mudar de comportamento raramente começa com grandes decisões. Começa quando reconhecemos uma resposta automática que deixou de nos servir e treinamos, deliberadamente, outra.

Preparar hoje o comportamento de amanhã

Talvez, por isso, a pergunta mais importante para o futuro do trabalho não seja apenas:

 

Que competências vamos precisar?

Talvez devamos começar também a perguntar:

 

Que comportamentos precisamos de desenvolver hoje para continuarmos capazes de aprender, mudar e gerar valor amanhã?

E, para quem lidera pessoas, acrescentaria outra:

 

Que comportamentos estamos a desenvolver hoje nas nossas equipas para as preparar para o trabalho de amanhã?

A tecnologia vai continuar a evoluir. As funções vão mudar e algumas das competências que hoje valorizamos perderão importância enquanto outras surgirão.

Não podemos prever tudo.

Mas podemos desenvolver pessoas mais capazes de responder ao que ainda não conseguimos prever.

É precisamente aqui que desenvolvo o meu trabalho: ajudar pessoas e organizações a transformar a necessidade de mudança em comportamentos que sustentem a adaptação e o desempenho.

Se esta questão está presente na sua organização, na sua equipa ou na sua própria carreira, podemos conversar.

 

O futuro profissional não começa quando a mudança chega. Começa nos comportamentos que treinamos antes dela.

 

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